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Criação de unidades de saúde multissetoriais no ACES
Almada-Seixal visa «intervenção concertada»
Publicado em 22 de julho de 2020 - 17:02
No Agrupamento dos Centros de Saúde (ACES) Almada-Seixal
existem, "à semelhança do que sucede noutros locais, três áreas de
intervenção prioritária na população e que se prendem com a promoção da saúde
mental, a prevenção da obesidade infantil e intervenção dirigida às
populações migrantes", afirma Alexandre Tomás, que assumiu a direção
executiva deste ACES em junho do ano passado.
Na sua opinião, "embora deem o seu contributo, não é com os modelos
de unidades de saúde familiar (USF) e de unidades de cuidados de saúde
personalizados (UCSP) que conseguimos encontrar respostas para essas três
questões, obrigando a inter-relacionar inovação organizacional com formação e
investigação e ainda a procurar uma melhor relação entre as várias unidades
funcionais.”
Esta procura na implementação de novas soluções tem norteado Alexandre Tomás, e
a equipa que lidera, desde o início do seu mandato. Ao invés de ser um
obstáculo, a pandemia por covid-19 veio mesmo reforçar esta vontade de ir ao
encontro da comunidade, procurando potenciar aquilo que o responsável considera
ser o "ponto forte" deste ACES, como resultado do bom trabalho
desenvolvido nos últimos anos.
Alexandre Tomás refere-se à "relação extraordinária que existe com os
vários parceiros", nomeadamente, a Segurança Social, a Proteção Civil, as
escolas, as instituições da comunidade, as forças de segurança e, claro, os
dois municípios, com o particular envolvimento da Saúde Pública, “que se
evidenciou neste contexto de pandemia”.
E conclui: “É um bom exemplo de ação intersetorial, em que temos diferentes
atores com perspetivas próprias sobre o mesmo problema, assumindo decisões
confortáveis para todas as organizações, para bem da população, à qual todos
prestamos um serviço público.”
População essa que tem um perfil muito urbano no concelho de Almada e mais
rural no concelho do Seixal, bastante envelhecida no centro das duas cidades,
mas com muita gente jovem, ativa, que trabalha em Lisboa, mas reside nos
arredores da capital. Há ainda uma outra característica dos habitantes desta
região que merece destaque:
“Temos uma população migrante muito substantiva, que exige uma capacidade de
olhar específico, singular. As pessoas têm características diferentes, não só
em relação ao seu perfil epidemiológico, mas também quanto à regularidade de
acesso aos cuidados de saúde, que usam de forma atípica."
Desta forma, considera que tem de haver "uma enorme capacidade de
organização das nossas equipas que permita uma resposta à tipologia de procura
que se verifica", dando um exemplo: "Acompanhar a população feminina
grávida obriga a uma intervenção na comunidade e em proximidade, recorrendo à
colaboração de líderes comunitários.”
"A Saúde Pública tem sido um elemento estruturante"
Nesta visão estratégica de Alexandre Tomás para o ACES Almada-Seixal,
"a Saúde Pública tem um valor superlativo naquilo que é a identificação
das prioridades da nossa comunidade e também no que devem ser as principais
atividades e estratégias para responder a essas necessidades da
população", afirma Alexandre Tomás, desenvolvendo a ideia:
"Não a vejo como uma mera unidade funcional, nem me consigo imaginar a
desempenhar o meu papel sem ter uma ligação absolutamente umbilical com a USP e
com a sua coordenadora."
E, especificamente quanto à pandemia, "a Saúde Pública tem sido, de facto,
um elemento estruturante”, frisa, lembrando que, quando a covid-19 surge, “as
USP do país estavam praticamente todas subdimensionadas, com poucos
profissionais”. O diretor do ACES Almada-Seixal tratou, aliás, de reforçar a
sua, admitindo que, “na fase inicial, foi complexo responder a todas as
solicitações, mas hoje, felizmente, temos a nossa USP em ‘velocidade de
cruzeiro’.
Unidades de saúde multissetoriais
Alexandre Tomás afirma ser “indiscutível que nos últimos 20 anos melhorámos
muito a resposta em cuidados de saúde primários”, reconhece que “a
acessibilidade é genericamente muito superior” e que isso aconteceu na
sequência da reorganização dos CSP, sobretudo com a criação e desenvolvimento
das USF, mas também tem a certeza de que “esse modelo de reorganização chegou a
um limite de crescimento”.
E justifica a sua afirmação com o exemplo do que se passa no ACES
Almada-Seixal, onde ainda existem 4 UCSP, ou seja, “em números redondos, temos
cerca de 35 mil utentes sem equipa de família atribuída; ora, estarmos a pensar
que no curto prazo vamos ter 4 ou 5 novas USF é um mito”. O raciocínio é
simples:
“Temos uma geração de médicos com mais de 64 anos, muito robusta, quer em
termos das suas competências, quer do vasto trabalho que desenvolveram de
valorização e reconhecimento dos CSP. Esta geração, num horizonte de 4 ou 5
anos estará em condições de se aposentar. E há aqui uma lógica de renovação
geracional que vai acontecer, com os novos profissionais, tendencialmente, a
integrar as unidades já existentes.”
“É preciso encontrar outras formas de organizar as nossas equipas que
correspondam às capacidades dos profissionais mas também às necessidades da
comunidade. Gostaria muito que, a prazo, o nosso Agrupamento fosse reconhecido
como um ACES promotor da inovação organizacional e que pudéssemos ensaiar
várias formas de responder à população. Tenho dito isso aos profissionais e
apoiarei os projetos que nos apresentem nessa dinâmica de inovação”, garante
Alexandre Tomás.
Na sua opinião, para que tal aconteça, será preciso “sair da caixa”, ou seja,
“é necessário usarmos todos os recursos existentes na comunidade em prol da
própria comunidade”.
"Soluções ajustadas à singularidade das comunidades"
Isso quer dizer que a solução passará, por exemplo, pela “criação de unidades
de saúde multissetoriais, com profissionais de saúde e também de outros
setores”. “Alguém poderá concordar que consigamos entrar e interagir numa
comunidade específica, com particularidades próprias, permitindo a intervenção
de um setor de cada vez? Hoje a Segurança Social, amanhã a Educação, depois a
Saúde… Faz sentido, sim, que haja uma intervenção concertada, que garanta
melhores condições de vida àquelas pessoas”, considera Alexandre Tomás,
prosseguindo:
“Isto não é estigmatizar, não é segregar, é pensarmos soluções ajustadas à
singularidade das comunidades. Normalmente, o sistema pensa no igual para
todos, no cidadão padrão, e isso não existe. Claro que não conseguimos
hiper-personalizar, constituir uma equipa para cada agregado familiar, mas
temos que passar de uma ‘malha larga’, USF ou UCSP, para unidades de
intervenção local e multissetoriais.”
Ainda no campo da inovação organizacional, o diretor executivo do ACES
Almada-Seixal equaciona a lógica do médico + enfermeiro + secretário clínico,
segundo o modelo atual aplicado ao funcionamento das unidades (USF e UCSP). A
pergunta surge logo de seguida:
“E o nutricionista, o psicólogo, o técnico de serviço social, o higienista
oral, o terapeuta da fala? Porque as famílias também precisam desses recursos.
Nós, felizmente, temo-los, na nossa URAP, mas, em bom rigor, não integram as
equipas de saúde familiar. Não deveria haver uma intersecção muito maior entre
estes profissionais e as USF e UCSP? Eu entendo que sim, mas também devíamos
ter mais desses recursos e não temos!”
A inovação organizacional também deverá contemplar, segundo Alexandre Tomás,
aspetos aparentemente menos importantes. Como este: “Quando estamos a querer
que os ACES tenham uma capacidade de intervenção e mais autonomia, necessitamos
de ter condições internas para reter os bons profissionais ‘não
clínicos’."
Contudo, sublinha o responsável, "nós não temos, por exemplo, qualquer
forma de valorizar um colaborador de uma UAG e impedir que, sendo um técnico
qualificado, aceite o convite para assumir funções de administrador hospitalar,
ou venha a integrar uma USF de modelo B, até porque, em ambas as situações, vai
ter um interessante atrativo remuneratório.”
O valor superlativo do arquipélago...
Se a promoção da inovação organizacional é algo em que Alexandre Tomás quer
investir no seu próprio ACES, a aposta na formação e na investigação aparece
logo a seguir na lista de prioridades, até porque a primeira tem que estar
também associada à segunda. Isto para permitir, nomeadamente, obter informação
e ter dados concretos sobre os resultados conseguidos com a intervenção em
determinada comunidade. E adianta:
“Já desenvolvemos contactos com a Academia, para que possam também olhar para
nós como um ACES interessado em fazer esse trabalho. Mais uma vez, na
perspetiva de procurarmos soluções, que elas tenham evidência nos resultados e
que possamos dizer aos outros: ‘Estamos a fazer assim, se fizer sentido
replicar, repliquem!’”
A terceira prioridade identificada por Alexandre Tomás é aquilo que classifica
como sendo “um desafio para dentro do ACES”. No seu entender, as unidades que
integram um agrupamento não podem pensar e agir como se fossem ilhas no meio de
um oceano.
E a mensagem já foi transmitida a todos os coordenadores, tal e qual desta
forma: “Temos que fazer um esforço para que, admitindo que possam pensar que
são ilhas, pelo menos, tenham a noção de que são ilhas de um arquipélago. E que
esse arquipélago tem um valor superlativo a cada uma das ilhas.”
“Temos que ter, dentro do nosso ACES, muito mais capacidade de ação articulada,
de interação entre as várias unidades funcionais – USF, UCSP, UCC, URAP, USP...
– e de responder de forma concertada às necessidades da população. A ilha tem
que ter noção de que está dentro de um arquipélago, portanto, a outra ilha ali
ao lado pode ser um bom recurso, mas também pode precisar de apoio. E nós temos
que ter essa capacidade de interação, que nalguns casos é muito difícil de
conseguir”, admite, acrescentando:
“Não deixa de ser interessante que, no contexto de pandemia, tenha sido
possível ver unidades articularem-se para uma questão tão simples como fazer
orientação dos utentes à porta do edifício que ocupam. E fizeram-no bem!”
E, para Alexandre Tomás, “há que voltar a assumir que a estrutura do centro de
saúde existe. Com uma dinâmica organizacional em unidades funcionais flexíveis,
mais pequenas? Sim, faz todo o sentido, mas a figura do CS existe. Temos que
revisitar esse conceito identitário”.

