sexta-feira, 12 de agosto de 2016
Incêndio no Inverno, e o 'frete politico' a ferro e fogo
Naturalmente que no verão os incêndios são um drama
para as populações, um negócio para diversas áreas de uma «economia sombria» e
um 'frete' para os políticos... já que a concretização de politicas de
ordenamento, desenvolvimento e protecção do território é uma absoluta miragem
dos últimos 40 anos...
Acontece que nas próximas 3 estações 'ninguém' irá
falar deste «dinheiro queimado».
Não sendo um especialista neste domínio, penso,
analiso e dou uns ‘bitaites’. Aqui vão:
- é sabido que o êxodo rural fez com que as matas e florestas
ficassem abandonadas;
- o desenvolvimento da floresta, não só como ‘património
nacional’ mas também como valor económico não foi tido em consideração pelos
pequenos proprietários, nem pelo Estado;
- mata/floresta queimada sempre esteve associada a
interesse da economia «transformadora de madeira», bem como de grandes
(influentes) complexos urbanísticos;
- a tão apregoada reflorestação, mais não foi do que
plantar eucaliptos para produção de papel… desenfreadamente;
- voluntários, estudantes, funcionários das
autarquias, agentes de segurança, militares entre outros, a vigilar as
matas/florestas… é coisa de meninos…
- disponibilizar meios da força aérea para combater incêndios,
não pode ser porque podemos, de repente ser atacados por algum… inimigo!
Não obstante todos estes pressupostos, o que mais me impressiona
é o ‘provincianismo bacoco’ da comunicação social… a fazerem verdadeiros Reality
show em direto… quem tem a imagem com a labareda maior? ou o jornalista mais
perto do fogo, ou o cidadão que mais perdeu? Bom bom para o espetáculo era um
jornalista queimado…
Mas o que já não se vê, é aquela comunicação social
acutilante, incisiva e exigente com a governação.
Aquela que em ano de muito menos incêndios, afirmava
aos sete ventos e a fortes plumões: com este governos estamos a ‘Ferro’ e ‘
Fogo’!
segunda-feira, 11 de julho de 2016
Dois anos de diferença
GOOOOLLLOOOOOO!
A racionalidade do treino, da preparação, da tácita ou da
motivação estremeceu na emoção da lesão do CR7, do poste do Patrício, da barra do
Guerreiro e do golo do Éder! A vitória da seleção é de todos nós. Cada um sente
este momento com seu, único, intransmissível mas distribuível. Cruzamos na rua
com alguém que enverga um qualquer símbolo nacional e sorrimos, contagiamos de
energia… abraçamos e sentimos. Pátria, Nação, Identidade, Pertença,
Portugalidade… esta alegria dá para dar sem se perder ou se esgotar…
CR7 foi até ao momento o melhor futebolista Português
(alguém com mais conhecimento de futebol poderá extrapolar para mundial) de
todos os tempos.
É um futebolista por inteiro. Nasceu, sofreu, cresceu,
fez-se, aperfeiçoou-se, em toda a plenitude: Homem, Atleta, Exemplo, Líder. Também
ontem terá provado lágrimas de dor, e saboreado lágrimas de contentamento. Para
a borboleta a lágrima não foi de dor, foi sabor de vida. Alguns crentes viram
ali o toque de pai a acalmar o filho: ‘calma,
descansa, tens outra missão a cumprir. Acredita!’. E assim foi. Outros mais
biólogos ou caricatos viram ali a metamorfose do pantera negra a sussurrar: ‘diz ao Éder que eu (pantera) vou marcar um
golo!’ E assim foi.
O último mês, em particular o dia de ontem, foi de soberba cooperação
e superação. E estes serão porventura os melhores preceitos do Futebol para uma
sociedade repleta de egoísmos, vaidades e individualismos.
27 anos depois jamais se lembrará, jamais esquecerei. No
Estoril Praia para ele foi mais um ano como treinador, para mim foi o ano como
jogador. Recordo bem a persistência, o trabalho rigoroso, o trato afável, sem
ser eloquente nos discursos. Homem simples irradiava otimismo. “anda miúdo,
vai, acredita…” jamais esquecerei!
Mas quis o destino aproximar os dois homens que hoje
levantaram a taça à chegada a Portugal. O primeiro iniciou-se como treinador
(1987) dois anos depois do nascimento do segundo (1985). O segundo chegou a campeão
europeu (liga dos campeões) e da Europa (Euro 2016) aos 31 anos. O primeiro começou
como treinador com 33 anos
As elipses de vida de dois homens de diferentes gerações quiseram-se
tocar agora para proporcionar este momento fantástico… mas não obstante a
enorme euforia, estão já a iniciar processo de afastamento natural. Euforia e
nostalgia… e acalmia!
GOOOOLLLOOOOOO!
A racionalidade do treino, da preparação, da tácita ou da
motivação estremeceu na emoção da lesão do CR7, do poste do Patrício, da barra do
Guerreiro e do golo do Éder! A vitória da seleção é de todos nós. Cada um sente
este momento com seu, único, intransmissível mas distribuível. Cruzamos na rua
com alguém que enverga um qualquer símbolo nacional e sorrimos, contagiamos de
energia… abraçamos e sentimos. Pátria, Nação, Identidade, Pertença,
Portugalidade… esta alegria dá para dar sem se perder ou se esgotar…
CR7 foi até ao momento o melhor futebolista Português
(alguém com mais conhecimento de futebol poderá extrapolar para mundial) de
todos os tempos.
É um futebolista por inteiro. Nasceu, sofreu, cresceu,
fez-se, aperfeiçoou-se, em toda a plenitude: Homem, Atleta, Exemplo, Líder. Também
ontem terá provado lágrimas de dor, e saboreado lágrimas de contentamento. Para
a borboleta a lágrima não foi de dor, foi sabor de vida. Alguns crentes viram
ali o toque de pai a acalmar o filho: ‘calma,
descansa, tens outra missão a cumprir. Acredita!’. E assim foi. Outros mais
biólogos ou caricatos viram ali a metamorfose do pantera negra a sussurrar: ‘diz ao Éder que eu (pantera) vou marcar um
golo!’ E assim foi.
O último mês, em particular o dia de ontem, foi de soberba cooperação
e superação. E estes serão porventura os melhores preceitos do Futebol para uma
sociedade repleta de egoísmos, vaidades e individualismos.
27 anos depois jamais se lembrará, jamais esquecerei. No
Estoril Praia para ele foi mais um ano como treinador, para mim foi o ano como
jogador. Recordo bem a persistência, o trabalho rigoroso, o trato afável, sem
ser eloquente nos discursos. Homem simples irradiava otimismo. “anda miúdo,
vai, acredita…” jamais esquecerei!
Mas quis o destino aproximar os dois homens que hoje
levantaram a taça à chegada a Portugal. O primeiro iniciou-se como treinador
(1987) dois anos depois do nascimento do segundo (1985). O segundo chegou a campeão
europeu (liga dos campeões) e da Europa (Euro 2016) aos 31 anos. O primeiro começou
como treinador com 33 anos
As elipses de vida de dois homens de diferentes gerações quiseram-se
tocar agora para proporcionar este momento fantástico… mas não obstante a
enorme euforia, estão já a iniciar processo de afastamento natural. Euforia e
nostalgia… e acalmia!
sexta-feira, 1 de julho de 2016
... refletir sobre 20 anos!
Percurso Profissional (Apresentado no Concurso Para Especialista Académico)
Em diferentes momentos da vida, aparentes pequenas
oportunidades provocaram grandes metamorfismos pessoais, familiares e profissionais.
Foi assim em 1995 (Coimbra), 2001 (Universidade Atlântica),
2003 (Instituto Piaget), 2007 (Ordem dos Enfermeiros) e também em 2011.
A frequência do Curso Superior de Enfermagem em
Coimbra, tendo eu crescido em Sintra, permitiu-me reforçar a responsabilidade
do que hoje, vinte anos volvidos, se reconhece por desenvolvimento profissional.
Fruto do caminho percorrido, atualmente reflito com
mais amplitude sobre a frase de Ortega “O
homem é o homem e a sua circunstância”.
Os sete anos de exercício profissional com enfermeiro
(cuidados gerais) na Unidade de Cuidados Intensivos de Neurocirurgia do
Hospital de S. José, foram uma verdadeira ‘escola profissional’, cujo impacto
no meu desenvolvimento só terá sido percecionado em anos posteriores.
Decorrente do trabalho, dedicação, pesquisa, discussão intra equipa, bem como
de reflexão na e sobre as práticas, ‘fui’ Patricia
Benner antes de a conhecer.
Se numa fase inicial, estive centrado no domínio da
componente técnica, progressivamente a energia de um jovem enfermeiro foi
direcionada para as famílias e para a equipa.
Consciente deste facto, não vislumbro porém quem ‘chegou
primeiro’, se a família se a equipa.
A intensa participação nas discussões sobre
Enfermagem, o acompanhamento de estudantes em Ensino Clínico e, apesar de com
menos frequência a integração de jovens profissionais, prepararam-me ou
desencadearam um enorme interesse pela dimensão pedagógica/educativa.
Este processo causava um relativo paradoxo de
sentimentos.
A evidente satisfação pelo resultado desta profícua
interação formativa era, introspetivamente ensombrado pelo receio de
estagnação.
Num contexto em que a oferta formativa na área de
enfermagem (especialidades) era bastante limitada, para não dizer inacessível,
a um enfermeiro com pouco mais de dois anos de experiência profissional, experiência
essa que muitas vezes era o critério decisivo, o curso de Licenciatura em
Gestão em Saúde surgiu como percursor de mais um metamorfismo.
A proximidade geográfica da Universidade à residência,
bem como a possibilidade de frequência às aulas em regime pós-laboral, foram acessórios
favoráveis a acrescentar à possibilidade concreta de adquirir conhecimentos em
Gestão e assim melhor compreender e intervir junto da equipa.
Competente
mas talvez ainda não proficiente. O
percurso profissional, apesar de exercido no mesmo serviço, foi enriquecido em
consequência das inúmeras análises situacionais mais globais que parcelares. O
contexto de exercício profissional passou de átomo a cosmos e o desempenho foi
segura e continuamente melhorado. A prestação de cuidados não era apenas uma
fase de ‘um processo de enfermagem’. A prestação de cuidados era hauptmotiv do desempenho profissional.
A equilibrada trilogia entre ser, crescer e formar
foi fortemente influenciada pelo início estruturado de atividade docente,
oportunidade que curiosamente não surge pelo reconhecimento de competências mas
sim pelo reconhecimento de qualificações.
O cidadão que no contexto de exercício de enfermagem
seria mais perito que proficiente, era agora iniciado na docência.
O percurso seguinte determinou uma perspetiva
profissional dicotómica, dual ou paralela. Enfermagem ou Gestão. Emoção ou razão.
Desejável ou possível. Prestação de cuidados ou Docência.
Num percurso de grande satisfação profissional com a
prestação de cuidados, fui sentindo progressivamente cada vez mais
estabilidade, confiança e segurança alicerçado no reconhecimento
multidisciplinar.
A frequência do Curso de Complemento de Formação em
Enfermagem acrescentou menos que o expectável. Talvez por elevadas e
desmesurada expectativas pessoais ou por dessincronia entre o momento cronológico
e percurso trilhado.
Durante dois anos letivos, a avaliação positiva do
desempenho com docente no curso de Gestão em Saúde da Universidade Atlântica, e
como enfermeiro no Hospital de S. José, não foram razão bastante para ser
reconhecido pela então coordenação do Curso de Licenciatura em Enfermagem da
mesma Universidade e a mudança voltou a acontecer.
A emoção queria Enfermagem, mas a razão procurou a
Gestão. O desejável seria docente em Barcarena/Lisboa, o possível foi Viseu.
A admissão no Programa de Doutoramento em nuevas
tendências en direción de la empresa da Universidade de Salamanca com aulas em
Viseu, despoletou o contacto e posterior colaboração com o Instituto Piaget.
Vivi neste momento, porventura uma das fases mais
intensas e conturbadas. Uma ‘verdadeira’ crisálida que rompe com a zona de
conforto e provoca na sua vida uma efetiva rutura epistemológica de Thomas
Kuhn. As semanas passaram divididas entre Lisboa e Viseu.
A emoção queria a Atlântica; a razão apontava para o
Piaget.
O processo de integração a um novo contexto
geográfico, social e profissional, efetivou-se de forma favorável tendo sido
muito evidente a melhoria que foi incorporada na organização e no ensino do
curso de enfermagem, nomeadamente ao nível das aulas teórico/práticas e nos
ensinos clínicos. Contudo a estratégia da Escola em Viseu era substancialmente
distinta da que defendi, nomeadamente ao nível de número de estudantes,
qualificação do corpo docente, diferenciação do ensino e tipologia de oferta
formativa.
A proposta de regresso à Universidade Atlântica, sem
dela nunca ter saído, permitiu-me o exercício profissional como docente
simultaneamente nas duas áreas. Enfermagem e Gestão.
Sequencialmente surge a oportunidade de colaborar com
a Escola Nacional de Saúde Pública, integrando um grupo de investigadores. Esta
atividade veio a demonstrar-se fundamental para orientação dos estudantes na
realização dos trabalhos de final de curso, que à época incorporavam as componentes
metodologica e empírica de investigação.
A bonança outrora almejada foi sendo alcançada.
A docência na área de Gestão em Saúde estava
alicerçada nos conhecimentos adquiridos ‘em Salamanca’ e nas competências de
investigação.
A docência na área da Enfermagem, com a assunção de maiores
responsabilidades na área de urgência/emergência, nomeadamente por ser
coordenador da Pós-graduação nessa área específica, coadjuvadas ao facto de ter
exercido na Unidade de Cuidados Intensivos, naturalmente fizeram emergir a
necessidade de formação acrescida na área de Enfermagem Médico-Cirúrgica.
A estrutura do Curso de Mestrado em Ciência de
Enfermagem, especialização em Enfermagem Médico-Cirúrgica da Universidade
Católica respondia a esse desígnio.
A frequência do referido curso, evidenciou uma parte
teórica satisfatória, destacando os ensinos clínicos como a componente mais
relevante para o meu desenvolvimento profissional.
A área ‘opcional’ selecionada foi a Comissão de
Controlo de Infeção, tendo como horizonte a competência específica do enfermeiro
especialista: «maximiza a intervenção na
prevenção e controlo de infeção perante a pessoa em situação criativa e/ou
falência orgânica, face á complexidade da situação e à necessidade de respostas
em tempo útil e adequadas».
Neste contexto focamos a nossa atenção para o
desenvolvimento de ações promotoras de higienização das mãos por parte dos
profissionais de saúde, bem como na elaboração de 'Bundles' sobre a colocação
de cateteres venosos centrais.
Esta área de atenção, prevenção de infeções associadas
a cuidados de saúde (IACS), foi central nos ensinos clínicos seguintes que
decorreram na Unidade de Cuidados Intensivos de Neurocirurgia do Hospital de S.
José e no Serviço de Urgência do Hospital de S. Francisco Xavier.
O ensino clínico nestas duas unidades permitiu-me
(re)adquirir competências técnicas, bem como (re)encontrar as famílias e as
equipas. Reconheço e reforço a extrema relevância que os ensinos clínicos
desempenharam no meu percurso profissional, mas a mais-valia ocorreu sobretudo
porque mobilizei, quase de imediato, a área da prevenção das IACS para as
devidas unidades curriculares do Curso de Licenciatura em Enfermagem e
Pós-graduação de Urgência e Emergência hospitalar.
Na época, ser regente das Unidades Curriculares de
Enfermagem Médico-Cirurgica, Enfermagem de Emergência no Curso de Licenciatura
de Enfermagem, bem como da abordagem ao doente neurocritico na Pós-Graduação de
Cuidados Intensivos para Enfermeiros, permitiu proceder a essa integração,
respeitando obviamente a matriz principal dos referidos Cursos/Unidades
Curriculares.
No ano letivo seguinte, em articulação com o Gabinete
de Pós-Graduações da Universidade e no respeito pela autonomia científica e
pedagógica, propus que a Pós-Graduação de Urgência e Emergência integrasse na
sua estrutura curricular a área da prevenção de Infeções Associadas aos
Cuidados de Saúde.
Para além da docência na área de Enfermagem, na área
de Gestão em Saúde, e nas Pós-Graduações, desenvolvei na Universidade Atlântica
funções de gestão, nomeadamente como assessor do Reitor, integrando o Gabinete
de Estudos e Planeamento. Desta forma colaborei na organização da distribuição
de serviço docente; participei nos processos de autoavaliação dos cursos; e
integrei o grupo para implementação do processo de avaliação dos docentes;
Nesta fase no meu percurso profissional a amplitude
das funções que desempenhava na Universidade Atlântica eram complementadas como
as responsabilidades de Vogal do Conselho Diretivo Regional da Secção Regional
do Sul da Ordem dos Enfermeiros.
Apesar de diversificada, muito complexa e exigente, a
Universidade foi-se tornando um espaço de conforto profissional. Conhecia a
cultura organizacional, as pessoas, funcionários, dirigentes e professores.
Participei em alguns espaços reservados de análise, discussão e definição de
estratégica de uma Universidade que apesar de ‘privada’ tinha como principal
acionista uma Câmara Municipal.
Vi, senti e vivi, ao longo de mais de 15 anos de
relação com esta Universidade os impactos dos legítimos interesses e
desinteresses políticos. Também aqui poderíamos recorrer à profundidade que dos
apresenta Noam Chomsky sobretudo na “reciprocidade
entre política e teoria da linguagem/comunicação”.
Em 2012 assumo funções de Presidente do Conselho Diretivo
Regional da Secção Regional do Sul e volto a mais uma metamorfose.
As diversas responsabilidades estatutárias exigiram
significativa dedicação, o que implicou uma redução progressiva na atividade na
Universidade. Voltámos a ser crisálida.
Saímos do ‘átomo’ Universidade para abraçar um
‘cosmos’ com 4,4 milhões de habitantes, 27 mil enfermeiros, 3 Administrações
Regionais de Saúde, 3 Unidades Locais de Saúde, 27 unidades hospitalares, 9
centros hospitalares, 18 Agrupamentos de Centros de Saúde, 203 Unidades de
Cuidados de Saúde Personalizados, 154 Unidades de Saúde Familiar, 95 Unidades
de Cuidados na Comunidade, 21 Unidades de Saúde Pública, 117 Unidades de
Internamento da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, 14
Estabelecimentos de Ensino Superior com Curso de Enfermagem…
Liderei a equipa de 19 enfermeiros membros efetivos
dos órgãos regionais, num mandato de imensas concretizações… para os
enfermeiros, os serviços, as instituições, os cidadãos, as famílias e a
sociedade.
Recordo e reescrevo uma ideia transmitida no
relatório de estágio elaborado e apresentado aquando da defesa do título de
Mestre.
«As atividades desenvolvidas neste mandato serão
seguramente de maior
amplitude e profundidade que a capacidade de memória, registo, análise e
síntese o permitem.»
Em
função das 18 competências do Conselho Diretivo Regional, inscritas no ponto 2,
do artº 46, da Lei nº 156/2015, destaco três áreas de atuação:
Acompanhamento do exercício profissional;
Representação da Secção Regional;
Participação na definição de política regional e
comunicação externa;
A dimensão e heterogeneidade de contextos de prática
clínica determinaram a realização de forma sistemática e contínua Visitas de
Acampamento de Exercício Profissional.
Constatamos que as principais áreas de atenção foram:
dotações (in)seguras, limitações nos sistemas de informação e défice de
organização de serviços/recursos.
Ao longo de 4 anos verificamos de forma reiterada a
existência de uma relação paradoxal:
As pessoas e as famílias, fruto do contexto
socioeconómico desfavorável, apresentam mais necessidades em saúde e de maior
complexidade.
Por outro lado, os serviços e as equipas possuem
gradualmente menos recursos. Daqui resulta um efetivo comprometimento para a
Enfermagem, estando os enfermeiros exclusivamente absorvidos na realização de
atividades (tarefas) diárias e simultaneamente aleados/vítimas do desenvolvimento
profissional, que, nestes contexto passará a ser mais controlado/decidido por
não enfermeiros.
A representação da Secção
Regional, permitiu naturalmente o contacto com um sem número de instituições e
organismos públicos, privados e do setor social, nacionais e estrangeiros, que
exigiram elevada capacidade de comunicação e participação, na constante
afirmação da Enfermagem.
A relação institucional com estruturas de poder
regional (ARS) e de poder local (Hospitais, ACES e Municípios) permitiu
apresentar propostas concretas de melhoria das respostas às necessidades dos
cidadãos, destacando a recomendação profissional aprovada em Assembleia
Regional. Destaco também a realização conjunta de uma conferência de imprensa
com o Conselho Diretivo Regional do Sul da Ordem dos Médicos sobre a proposta
de Orçamento do Estado para o ano de 2015, e consequente reunião com a Comissão
Parlamentar de Saúde.
No âmbito da comunicação externa, de referir os
inúmeros textos produzidos na imprensa escrita sobre Sistema de Saúde e as
reportagens televisivas promovidas e acompanhadas sobre ‘casos positivos’ de
Enfermagem.
Olho o passado…! Indubitavelmente
nostalgia e confiança.
Reflito sobre o passado até onde
a memória me permite alcançar e de imediato surge o pensamento complexo de Edgar
Morin.
Vou ‘…olhar sobre o ombro’ (L. Nunes)
para pensar em conjunto as realidades entrelaçadas e complexas como o ‘Cuidar’
de Hesbeen, as intervenções dos enfermeiros no REPE e as competências dos
enfermeiros de cuidados gerais e dos enfermeiros especialistas.
E desse olhar emergem… transições
(A. Meleis)
--- Fim do Documento ---
sábado, 25 de junho de 2016
Ato Médico. Sintonia, Matreirice e "comer de cebolada"
De tempos a tempos surge a discussão do 'ato médico', cada vez com "fundamentos" mais rebuscados! O candidato a bastonário da ordem dos médicos, neste artigo alude à corrupção por falta de definição jurídica de 'ato médico'...! Incrível! O 'problema' dos médicos (de alguns) não está na usurpação de funções quando a D Maria da mercearia do mercado da ribeira sugere, numa tal consulta, que a sua vizinha Emília coma menos bananas e mais romãs por causa dos diabretes, ou que o Sr Zé Manel da barbearia de Coimbra diga ao Sr Miguel que para a dor de dentes o melhor é a bela aguardente caseira do Sr Pedro...
O problema dos médicos são, a autonomia de aconselhamento e venda de medicamentos por parte dos farmacêuticos, autonomia da intervenção dos fisioterapeutas, o resultado das ditas alternativas/complementares (homeopatia, acumpultura e muitas outras) ou a autonomia de exercício do efetivo enfermeiro de família (não o é 'apenas' por trabalhar numa USF, já para não equacionar a literacia em saúde... que um destes dias, saber será crime!
Noutros tempos as razões podiam ser outras, mas hoje, a aprovação mais que evidente do 'ato médico' só pode estar relacionada com tentativa de dominância hegemónica dos médicos sobre os outros, todos os outros, profissionais na área da saúde. Para mim, entre Ordens não existe "usurpação de funções" (crime público punível até 3 anos de prisão efetiva) mas sim negociação, clarificação e entendimento estratégico... Claro que o REPE (aprovado em 1996) tem uma configuração lata, global, abrangente... Mas sabemos que na discussão prévia ao REPE, havia (também enfermeiros) que defendiam o 'ato de enfermagem' (uma lista de tarefas que os enfermeiros estariam autorizados a realizar... e, naturalmente, sob prescrição e supervisão médica).
A sintonia entre cessante e pretendente (bastonários médicos) é evidente perante o artigo já referido e este publicados em dias seguintes.
Já a matreirice está na expressão, agora, repetida tantas e tantas vezes publicamente pelo autor do segundo. Agora que já está de saída da Gago Coutinho, afirma do arauto da sua posição paternalista dominante, "como é possível estarmos a exportar tantos enfermeiros quando fazem falta ao sistema de saúde português?"... O mesmo que em 2014 afirmava que os cuidados de saúde primários não precisavam de "enfermeiro sinaleiro" (na discussão do enfermeiro de família). E perante este lume brando da cebolada, lá vai a outra representante profissional colocar-se a jeito dizendo, também repetidamente, "nunca como agora, as nossas Ordens estiverem tão de acordo, Sr. Dr."!
O 'ato médico' vai agora ser aprovado. Não foi no verão de 1999 (coincidência ser novamente no verão, mas agora será sob anestesia geral... do Europeu de futebol) por ação de grande coragem política do então Presidente da República Jorge Sampaio, que vetou a aprovação da lei da AR.
Não esquecer que estamos hoje numa conjuntura política de esquerda; onde o Primeiro Ministro para se manter à tona de água até segura o chapéu de chuva do Presidente da República; onde este é tão popular que faz <flash interview> de futebol; numa Europa fraca perante brexit; e numa fase em que a falta de visão de futuro para a nossa profissão é por demais evidente, lamentável e mais que percebida pelo decisor.
O que será também interessante de apreciar, pós aprovação do 'ato médico' serão os votos de vitória que todos irão fazer... Sendo que já estou a ver a outra representante profissional e fieis súbditos afirmarem aos 'sete ventos' (redes sociais e vídeos promocionais) que a proposta inicial era muito pior, e que conseguiram alterar esse documento a bem da profissão. Não me preocupa especificamente a "letra da lei" que será escrita, mas o sentido/tendência da(s) Política(s)...
Depois da lei 2/2013 que regula a atividade das Ordens ter 'amputado drasticamente' a autonomia destas, do Estatuto da Ordem dos Enfermeiros de 2015 impedir liminarmente a possibilidade de criação de condições favoráveis e regulamentares de acesso à profissão, a aprovação do 'ato médico' relega a Enfermagem Portuguesa para a década de 70.
Assim sendo, resta-nos como estratégico para a profissão e para a qualidade e segurança dos cuidados de enfermagem para os Portugueses, falar de: carência (Portugal precisa de 20 mil enfermeiros (!)) assédio moral, burnout, encerramento de camas (está prevista a construção de mais hospitais (!) e de mais vagas em cuidados continuados (!)) denúncias nominais serviço a serviço (quais justiceiros dos tempos antigos) e, mais recentemente, que os enfermeiros Portugueses (licenciados, com vasta 'formação ao longo da vida') afinal precisam de mais formação... Há que admitir, há por ai uma representante que é visionária!
Noutros tempos as razões podiam ser outras, mas hoje, a aprovação mais que evidente do 'ato médico' só pode estar relacionada com tentativa de dominância hegemónica dos médicos sobre os outros, todos os outros, profissionais na área da saúde. Para mim, entre Ordens não existe "usurpação de funções" (crime público punível até 3 anos de prisão efetiva) mas sim negociação, clarificação e entendimento estratégico... Claro que o REPE (aprovado em 1996) tem uma configuração lata, global, abrangente... Mas sabemos que na discussão prévia ao REPE, havia (também enfermeiros) que defendiam o 'ato de enfermagem' (uma lista de tarefas que os enfermeiros estariam autorizados a realizar... e, naturalmente, sob prescrição e supervisão médica).
A sintonia entre cessante e pretendente (bastonários médicos) é evidente perante o artigo já referido e este publicados em dias seguintes.
Já a matreirice está na expressão, agora, repetida tantas e tantas vezes publicamente pelo autor do segundo. Agora que já está de saída da Gago Coutinho, afirma do arauto da sua posição paternalista dominante, "como é possível estarmos a exportar tantos enfermeiros quando fazem falta ao sistema de saúde português?"... O mesmo que em 2014 afirmava que os cuidados de saúde primários não precisavam de "enfermeiro sinaleiro" (na discussão do enfermeiro de família). E perante este lume brando da cebolada, lá vai a outra representante profissional colocar-se a jeito dizendo, também repetidamente, "nunca como agora, as nossas Ordens estiverem tão de acordo, Sr. Dr."!
O 'ato médico' vai agora ser aprovado. Não foi no verão de 1999 (coincidência ser novamente no verão, mas agora será sob anestesia geral... do Europeu de futebol) por ação de grande coragem política do então Presidente da República Jorge Sampaio, que vetou a aprovação da lei da AR.
Não esquecer que estamos hoje numa conjuntura política de esquerda; onde o Primeiro Ministro para se manter à tona de água até segura o chapéu de chuva do Presidente da República; onde este é tão popular que faz <flash interview> de futebol; numa Europa fraca perante brexit; e numa fase em que a falta de visão de futuro para a nossa profissão é por demais evidente, lamentável e mais que percebida pelo decisor.
O que será também interessante de apreciar, pós aprovação do 'ato médico' serão os votos de vitória que todos irão fazer... Sendo que já estou a ver a outra representante profissional e fieis súbditos afirmarem aos 'sete ventos' (redes sociais e vídeos promocionais) que a proposta inicial era muito pior, e que conseguiram alterar esse documento a bem da profissão. Não me preocupa especificamente a "letra da lei" que será escrita, mas o sentido/tendência da(s) Política(s)...
Depois da lei 2/2013 que regula a atividade das Ordens ter 'amputado drasticamente' a autonomia destas, do Estatuto da Ordem dos Enfermeiros de 2015 impedir liminarmente a possibilidade de criação de condições favoráveis e regulamentares de acesso à profissão, a aprovação do 'ato médico' relega a Enfermagem Portuguesa para a década de 70.
Assim sendo, resta-nos como estratégico para a profissão e para a qualidade e segurança dos cuidados de enfermagem para os Portugueses, falar de: carência (Portugal precisa de 20 mil enfermeiros (!)) assédio moral, burnout, encerramento de camas (está prevista a construção de mais hospitais (!) e de mais vagas em cuidados continuados (!)) denúncias nominais serviço a serviço (quais justiceiros dos tempos antigos) e, mais recentemente, que os enfermeiros Portugueses (licenciados, com vasta 'formação ao longo da vida') afinal precisam de mais formação... Há que admitir, há por ai uma representante que é visionária!
quarta-feira, 20 de abril de 2016
Porque vivemos em democracia?
Tenho para mim que as revoluções sociais e políticas, por
conseguinte exacerbação de ideologias, são desencadeadas pela constatação de
grandes, por vezes progressivas, assimetrias financeiras e económicas.
Tenho também para mim que o Homem (homens e mulheres) só
estabelecem objetivos que sabem poder alcançar, com mais ou menos trabalho,
esforço e/ou sacrifício. Decorre deste pressuposto que o equilíbrio,
satisfação, e felicidade humanas dependem em primeira instância da expectativa
de cada um, e não tanto do que se alcança em absoluto. Provavelmente, o meu
sobrinho que faz este ano 18 anos, no primeiro dia em que conduzir um carro sentir-se-á
tanto (ou mais) feliz que o Cristiano Ronaldo ao conduzir o seu novo
"Ferrari!" Essa satisfação é também progressivamente decrescente com
a utilização do produto. O segundo dia do 'novo' carro não será tão
entusiasmante até ao ponto em que conduzir só voltará a ser satisfatório com...
um novo Ferrari! (o primeiro carro que conduzi foi-me emprestado por um familiar. Era um fiat panda, branco, três portas...)
Existe, na natureza das relações humanas, como que uma
necessidade de altos e baixos, de oscilações mais positivas ou mais negativas,
de perdas e conquistas, de fluxos laminar e turbulento. Acontece na relação de
cada um de nós consigo próprio, na aquisição e utilização de produtos, na
relação que estabelecemos com os outros...
E como será nos processos de organização social?
Estaremos alheados da vantagem de conduzir um carro e preferimos provocar um acidente para passarmos a andar a pé?
Estaremos de tal forma desacreditados com a democracia, que
um destes dias acordamos confortavelmente a viver num regime totalitário?
Considero que existe uma grande distinção entre valor da
democracia e valor dos eleitos democraticamente. A organização da sociedade, suportada na democracia, provavelmente será consensual entre os portugueses. Da
mesma forma, mas em sentido contrário, a maioria da população não se revê no
comportamento de grande parte dos políticos.
Hoje, anestesiados com o deprimente circo mediático da
presidência do Brasil, não nos indignamos com a demagogia no discurso da política
Portuguesa. Candidatos que prometem determinadas medidas (mais emprego, menos
impostos) e que depois de eleitos aumentam impostos e não garantem condições
para efetiva criação de emprego, são tão frequentes nos últimos 20 anos de
governação que «o povo» já aceita que assim seja.
Imaginemos que um qualquer candidato, teria nas últimas
eleições legislativas proposto manter a carga fiscal (IVA e IRS/IRC), o
congelamento das progressões na função pública e manutenção (com tendência para
reduzir) das contribuições sociais? Quantos votos iria obter…?
Sou então levado a crer (crença) que o ‘político’ para ser
eleito, terá de apresentar propostas ‘agradáveis’ aos eleitores, sabendo desde
logo que essas propostas serão ‘não concretizáveis’.
Após a eleição, gere o seu timing político (carreira) para em momento oportuno vir explicar, frequentemente
em tom vitimizado, que o ‘interesse nacional’ (demagogia) se sobrepõe à
verticalidade e honestidade que se impõe ao ‘homem como animal político’ (na
versão de Aristóteles).
Constato que o ‘homem político’ sabe que hoje, para aceder
ao poder e com isso pretender ‘fazer o bem’, terá de usar esta demagogia. Constato
mas não concordo! Aliás discordo veementemente!
Acontece portanto, e aqui talvez a minha maior preocupação,
que o exercício da política (ações dirigidas para o bem público e bem estar de
toda a sociedade) a par da valorização da democracia, deram rapidamente lugar
ao exercício do poder recorrendo a estratégias/técnicas de comunicação ‘de
massas’, declinando em absoluto o imperativo da ética de responsabilidade.
A procura do bem comum e o exercício do poder, são ambas legítimas
dimensões da ciência política ‘moderna’… mas o segundo é e tem de ser, um meio
para atingir o primeiro, e não um fim em si mesmo…
Estive esta semana com um concidadão do norte da europa, que
a propósito do que se comenta «nos Paços da Comissão Europeia» sobre as
discrepâncias entre o orçamento do estado para 2016 já aprovado na AR e o programa
de estabilidade exigido por essa mesma comissão, fez o mesmo ar de espanto que
um de nós ao olhar/ouvir declarações dos 367 deputados brasileiros que votaram
a favor do impeachment da Presidente
Dilma…
e não me parece que a semelhança/diferença seja de índole geográfica...
Beijos e Abraços
AT
e não me parece que a semelhança/diferença seja de índole geográfica...
Beijos e Abraços
AT
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